O paradoxo de ser “Maria”

Posted on dezembro 1, 2011

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Por Fabíola Buzim

No hebraico, o nome Maria significa “a mulher que ocupa o primeiro lugar, a mãe do Deus, a progenitora, senhora soberana”. Por outro lado, residem neste nome outros significados, e Maria também é Madalena, a prostituta, amante. Outra face extrema de uma mesma figura. Na música brasileira é uma das mais citadas e passeia pela música romântica, forró, MPB, samba, rock, e também pela música católica.

Para muitos, recai sobre a persona “Maria” uma herança conceitual de mulher virgem, santa, perfeita. O romântico Nelson Gonçalves cantou, na década de 40, a música “Maria Bethania” onde dizia: “tu és para mim a senhora do engenho, em sonhos te vejo, Maria Bethânia és tudo que eu tenho”. Nelson gravou mais cinco músicas tendo o nome como título: “Maria e mais nada”, “Maria Elena”, “Maria Luiza”, “Maria Pureza” e “Maria que ninguém queria”. Já Djavan compôs “Maria das Mercedes” em 1976, retratando a moça pura e sonhadora: “Eu tenho uma namorada viva no interior, Maria das Mercedes, linda como um beija-flor. Ontem eu recebi carta dela cheirando a fulô. Meu nego, estou intacta, pura, volte, por favor”. Em “Ai, Maria”, do grupo Partideiros do Cacique, ela é refúgio, consolo, lugar seguro, aquela que espera por seu amado, passivamente: “Sem ela eu não posso viver. Assim eu não posso ficar. Meu bem volto logo. Meu peito é o seu lugar”. Já na letra “Quando o carnaval chegou”, Luiz Melodia descreve: “Maria era minha alegria, quando chegava o carnaval nós brincávamos noite e dia”. Maria nesta versão ganha ares de donzela, moça feita para casar.

Já para outros a força desta mulher extrapola o divino puro e explode nas ações de mulheres determinadas a fazer o que bem entendem de suas vidas. E é no samba de Candeia que “Maria” visita este cenário contrário, e é retratada como mentirosa, a megera, aquela que o fez comer jiló dizendo que era berinjela. Candeia exalta também a beleza física de Maria: “é uma moça da pele bronzeada, cheirando a flor de canela”. Já o compositor Almir Guineto escreveu em “O destino de Maria” que ela nunca foi de vadiagem, sempre foi de trabalhar, mas a Maria mudou, se apaixonou por alguém que não a amava, e quem diria, a boa menina se desencaminhou, virou mulher de vida. Em “Sete Marias” de Sá e Guarabyra, são retratadas as muitas faces de “Maria”. São mulheres que tem o mesmo nome, mas personalidades e destinos diferentes. Sete caminhos guiados pelo coração: Maria noiva, Maria artista, a Bonita, Aparecida, de Lourdes, da Glória, Beata, do Rosário, Das Dores.

As músicas “Marias” e “Marias de um só João” foram evocadas pela voz grave de Leci Brandão. A sambista retratou as contradições de duas mulheres, a da favela e a da cidade. A primeira é empregada doméstica, que não entende de moda. A segunda é da cidade, de vida boa, arrumada e que faz plástica. Já no segundo samba ela é retratada como a mulher do lar, submissa, fiel, mas escrava do cotidiano e de sua realidade: “Jura ser Maria de um só João. Ainda passa roupa à ferro de carvão. Ai que servidão, ai que servidão”.

No imaginário popular “Maria” é mulher humilde, batalhadora, aquela que vem do povo. É a mistura de dor e alegria. Maria também é um dos nomes femininos mais comuns em todo Brasil, e é antes de tudo, a beleza de ser a mulher. A cantora Marisa Monte expressa através de “Maria de verdade” a poesia de ser Maria, e reforça “tua pessoa, Maria, Tua pessoa Maria, mesmo que doa Maria, tua pessoa”. A persona “Maria” é exaltada e se configura como um elogio ás heroínas brasileiras, trabalhadoras, guerreiras. Maria representa a complexidade e riqueza da alma feminina, aí, “Maria” ganha ares de Pagu, Fernanda, Beth, Ildi, Vera, Marina, Luiza…

E foi na parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant que resultou numa das canções mais conhecidas, “Maria, Maria”. A letra evoca uma personagem feminina, de presença marcante. Maria é mulher, é povo, Maria é força, personalidade. A “Maria” de Milton pode ser a sua mãe biológica, uma empregada doméstica que morreu quando o cantor tinha apenas quatro anos de idade. A música virou hino do movimento feminista ao ser interpretada por Elis Regina. A dupla compôs ainda “Maria solidária” onde esta figura é reafirmada. Mas talvez seja na interpretação que o músico Jorge Aragão fez de “Ave Maria” que esses paradoxos encontrem uma harmonia. Ele conseguiu executar uma música sacra com o cavaquinho, instrumento originalmente brasileiro e popular. Um bom exemplo musical da complexidade e riqueza do ser “Maria”. Ave, Maria! Mulher, cheia de graça!

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