(Ch)Xica da Silva, a negra

Posted on dezembro 1, 2011

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Por Lays Ariozi

“Uma manhã da segunda metade do século XVIII, nas proximidades do Arraial do Tijuco (hoje, cidade de Diamantina), quando ouro e diamante eram tirados do fundo dos rios que corriam nas montanhas de Minas Gerais, para servir à Coroa Portuguesa”. Assim, foi uma vez, o cenário inicial da conhecida trajetória marcante da escrava concubina que virou mulher de poder e prestígio na fechada elite mineira da época. Xica ou Chica da Silva, o mito de diversas versões, além de ser nome de música, teve sua história contada em vários livros, virou filme no cinema e novela na extinta TV Manchete.

A história de Chica, ao longo dos tempos, ganhou algumas versões. O que é comum em todas elas é que Francisca nasceu pobre e escrava no Arraial do Tijuco entre os anos de 1731 e 1735 – não se sabe a data certa – época do auge da febre dos diamantes neste local. Filha de um relacionamento extraconjugal do português Antônio Caetano de Sá com a negra Maria da Costa, conta-se que inicialmente a mulata fora escrava do sargento-mor Manoel Pires Sardinha e que possivelmente teve dois filhos com ele. Em seguida foi vendida ou dada a José Silva Oliveira, pai de José Oliveira, um dos conspiradores da Inconfidência Mineira. Com a chegada do contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, vindo de Lisboa a mando do Rei em 1753, a vida de Francisca começa mudar. Rendendo-se aos encantos e ousadias da mulata, João Fernandes compra-a pra si, dá-lhe a carta de alforria e realiza a partir daí todos os desejos da sua concubina Xica da Silva (sobrenome comum adotado por ex-escravos). Desfrutando do poder e riqueza do contratador, Chica ganhou um palácio, um lago imenso que simbolizava o mar, vários escravos, o direito de freqüentar algumas igrejas e adotou valores da elite para poder, de certa forma, pertencer a ela. Por essas e outras, conquistou respeito e recebeu o apelido “Chica- que-manda”, o qual é citado no Romance XIV do livro “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles.

Apesar da ex-cativa e o contratador de diamantes não oficializaram sua união, após o nascimento do primeiro filho do casal, Chica passou a assinar Francisca da Silva de Oliveira. Tiveram 13 filhos em 15 anos de convivência e todos foram registrados pelo pai e receberam educação privilegiada. Os amantes separaram-se em 1770, pois João Fernandes teve que voltar a Portugal para receber os bens deixados em testamento pelo pai. Levou consigo os quatro filhos homens que tiveram educação superior, ocuparam postos importantes e até receberam títulos de nobreza. Chica da Silva alcançou prestígio na sociedade local e teve uma vida confortável, graças às propriedades deixadas pelo contratador. Faleceu em 1796.

A música “Xica da Silva” feita por Jorge Ben Jor, além de representar uma das personagens femininas mais importantes da história do Brasil, fez parte da trilha sonora do filme homônimo dirigido por Cacá Diegues em 1976 e protagonizado por Zezé Motta, que ficou consagrada pelo papel recebendo o título de mulher mais sexy da época. Vinte anos depois, foi a vez de Taís Araújo protagonizar nossa escrava numa telenovela. Há também registros da música “Chica da Silva”, composta por Martinho da Vila, porém não se encontra gravação, apenas letra.

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