Maldita Geni

Posted on novembro 6, 2011

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Por Lorena Zarattini

“Geni e o Zepelim” teve seu maior sucesso no musical “Ópera do Malandro” de Chico Buarque, entre os anos de 1977 e 1978. Estourou nas rádios da época, se consagrando uma das maiores músicas do álbum lançado um ano após a peça. Como crítica à ditadura e ao poder, ela reinou no conhecido “Anos de ferro”. A canção ecoava pela população, que na maioria das vezes não tinha o menor conhecimento sobre o verdadeiro significado da letra.

Há quem pensasse que Geni era uma prostituta, porém na obra “Ópera do Malandro” a realidade aparece. Ela é uma travesti que vive de prestar serviços sexuais em um bordel frequentado por: “…tudo que é nego torto / Do mangue e do cais do porto”/ “O seu corpo é dos errantes / Dos cegos, dos retirantes / É de quem não tem mais nada”. Porém, não pertence como objeto ao bordel onde trabalha e frequenta, muito pelo contrário, é dona de seu próprio nariz e vive e faz de seu corpo o que quer, com quem e como quer. Tendo uma diferença entre a jovem e as outras prostitutas: Geni “dá-se” e não “vende-se”.

No entanto, na letra da música de Chico Buarque, Geni sempre é tratada no gênero feminino (ela, donzela, namorada, rainha, menina, na, feita, boa, maldita, “aquela formosa dama”, “essa dama”, coitada, singela, dela, bendita e, inclusive, o seu nome próprio). A opção do gênero da heroína na canção a coloca com respeito, pois independente do sexo, é tratada com apreço à sua escolha de ser uma mulher, como outras, ainda que “diferente”.

A indeterminação do gênero também permitiu driblar a censura. Dessa forma a crítica ao poder militar no momento em que a canção é composta passa totalmente despercebida. O poder do comandante é ironicamente caracterizado, pois ao mesmo tempo em que parece ser soberano, caracterizado por seu poder ditatorial nos discursos, mostra o seu lado frágil: “O guerreiro tão vistoso / Tão temido e poderoso / Era dela, prisioneiro”), no caso, de Geni. Por isso, o Zepelim, que, na verdade, é um balão, é comparado ao órgão genital do comandante, mostrando que seu desejo é maior que o seu poder. Por isso, o uso das expressões “Zepelim gigante” e “Zepelim prateado”.

Sob esse aspecto, a canção “Geni e o Zepelim”, assim como muitas outras músicas da época, é uma possibilidade de negação dos valores vigentes no Brasil nas décadas de 60/70 – momento de grandes conturbações políticas, sociais e culturais em que a arte tinha seu papel de resistência a ditadura.

 

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