A equilibrista que virou atriz

Posted on novembro 6, 2011

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Por Thiago Tiara

Beatriz é, certamente, uma das mais belas e sofisticadas composições da MPB. Composta por Chico Buarque e Edu Lobo, a música possui intervalos melódicos e modulações que fazem dela um desafio aos que tentam interpretá-la. Milton Nascimento, Gal Costa e Mônica Salmaso são umas das poucas pessoas que cumpriram essa tarefa com maestria.

Foi composta para o espetáculo “O grande Circo Místico”, um ballet teatro que mesclava música, ballet e circo. Posteriormente integrou o disco homônimo, que trazia diversos intérpretes, como Gal Costa, Simone, Gilberto Gil e Zizi Possi, se sagrando como o melhor “álbum de teatro” da dupla.

Chico estava com dificuldades para compor Agnes, a equilibrista da obra do parnasiano Jorge de Lima que dava nome ao espetáculo, mas com sua destreza, resolveu inovar e surpreender, já que a equilibrista Agnes não saía, criou uma dama à altura, a atriz Beatriz, em homenagem à Beatrice Portinari, de Dante Alighieri, autor da Divina Comedia, fechando assim a encomenda.

“Só tem graça aceitar uma encomenda quando você pode ser infiel ao que foi encomendado, quando você pode tomar certas liberdades. Quando eu estava fazendo as letras para as músicas de Edu Lobo, no balé O grande circo místico, havia um tema para a equilibrista que eu não conseguia solucionar. No poema de Jorge de Lima, a equilibrista se chamava Agnes, que aliás é um belo nome, mas a letra não saía. Então troquei Agnes por Beatriz, transformei a equilibrista em atriz e coloquei-a no sétimo céu, em homenagem à Beatrice Portinari, de Dante. Beatriz carregando minhas obsessões…”,  disse Chico Buarque.

Beatrice Portinari foi o grande amor de Dante, ele a conheceu quando tinha nove anos e ela apenas oito. Beatrice era filha de Folco Portinari, eles viviam próximos aos Alighieri. Eles apenas se viam, nunca se falaram, porém Dante nunca conseguiu esquecê-la. Ela inspirou a Beatriz da obra “La Divina Commedia”, no poema,  ele a encontra no fim do purgatório e ela o leva até o rio Lete. Quando Dante bebe a água do rio, esta apaga a sua memória, seus pecados, como se ele tivesse renascido.

A música, segundo Edu Lobo, faz uma metáfora aguda da vida de uma atriz, é o sonho da mulher inatingível, ao mesmo tempo, é a maquiagem do rosto, a sombra da vida diante da arte, é a própria metáfora da realidade, travestida pelos palcos.

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