Uma mãe angélica

Posted on outubro 20, 2011

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Por Flavia Doria

Chico Buarque talvez seja o compositor que mais dedique suas letras ao universo feminino, mas de todas as mulheres cantadas por ele nenhuma se aproxima tanto de sua fase política como “Angélica”, canção dedicada para Zuzu Angel.

Zuleika Angel Jones, reconhecida estilista que levou o nome do Brasil para o exterior com suas criações, ficou na história do país como um exemplo de luta contra a ditadura militar depois que o regime capturou seu filho. Até o fim de sua vida, Zuzu lutou para descobrir a verdade sobre o que aconteceu com Stuart Angel, um militante de esquerda da Juventude Revolucionário 8 de Outubro, organismo veiculado ao MR-8.

“Quem é essa mulher / Que canta sempre esse estribilho? / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar”

Em 1968, Zuzu fazia muito sucesso e seu filho já integrava a organização clandestina ao lado da namorada. Com a proclamação do AI-5, o decreto mais pesado que sofreu a Constituição, o jovem estudante entrou na clandestinidade, com medo de ser preso. Contudo, em um dos ataques promovidos pelos estudantes, Stuart foi detido.

Desde então, a estilista dedicou sua vida e seu trabalho, que adotou um tom de protesto, para desafiar o Governo que negava assumir estar envolvido com o desaparecimento de seu filho. Sua busca nunca obteve resultados, mas depois de anos, Zuzu recebeu em sua casa a carta de um companheiro preso de Stuart que contava a tragédia de sua morte, arrastado por uma viatura pelo asfalto, sendo forçado a ingerir gases tóxicos de um cano de escapamento.

Cinco anos depois da morte de seu filho, em abril de 1976, Zuzu Angel não sobrevive a um misterioso acidente de carro no túnel que hoje leva seu nome em homenagem. A polícia da época encerrou o caso constatando acidente, mas análises posteriores acreditam que o Karmann Ghia da estilista tenha sido empurrado para o penhasco por outro veículo.

Chico foi um dos amigos que recebeu uma cópia do testamento de Zuzu, que dizia pressentir que estava sendo perseguida. A música que fez em sua homenagem foi composta ainda nos anos 1970, em parceria com Miltinho do grupo MPB4 e integra a trilha do filme de 2006 que leva o nome desta mulher que representa todas as mães brasileiras que tiveram seus filhos perseguidos, torturados ou mesmo mortos pela ditadura militar.

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