As diversas Ritas da MPB

Publicado em novembro 9, 2011

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Chico Buarque

Por Pablo Marques

Há, no mundo, estilo musical mais rico que a Música Popular Brasileira? Trata-se somente de uma categoria de música, dentro de um determinado território e, ainda assim, é possível considerar a MPB a mais sofisticada do planeta. O mais interessante é que nossos músicos, verdadeiros arquitetos dessa cultura tão marcante, tiveram como inspiração, na construção de muitas de suas obras, musas que, nos versos onde elas mesmas são cantadas, foram suavemente eternizadas.

A Rita foi um grande dilema na vida de Chico Buarque – artista brasileiro capaz de escrever e descrever as mulheres como nenhum outro. Ela, à primeira vista, parece ter sido uma megera que arrasou a vida do pobre coitado mas sob olhos mais críticos e conhecedores da recente História do país, ao servir como personificação de um acontecimento, também é tida como uma forma elaborada pelo compositor de camuflar a sua manifestação contra o Regime Militar. Chico foi um dos artistas mais perseguidos pela Ditadura, que durou de 1964 a 1985.

Nos versos de “A Rita”, Chico revela que a mulher que ele tanto amava o havia deixado e levado alguns de seus bens, como seu retrato, seu trapo, seu prato, além de uma imagem de São Francisco, um disco de Noel Rosa e também uma de suas características mais marcantes: seu sorriso. Chico também diz na música que a Rita, ao partir, também teria levado seu dinheiro: o que não aconteceu porque ele não tinha dinheiro algum. Ao trazer a obra para o campo político, a percepção imediata é de um governo autoritário e que a Rita, na verdade, não foi uma mulher na vida do compositor mas, sim, uma fachada para Chico Buarque alfinetar a forma de governo implementada pelos militares após o golpe de 1964. Uma das mais belas manifestações da época e, sem sombra de dúvidas, uma música que ficará eternizada na vasta coleção de raridades da Música Popular Brasileira.

Luiz Carlos da Vila

No embalo da manifestação de Chico Buarque, Luiz Carlos da Vila, considerado um dos maiores sambistas de todos os tempos, colocou no papel toda sua indignação com a partida de Dora, mulher que o compositor amou profundamente. Ao contrário da Rita, Dora era, de fato, uma mulher “de carne e osso”. Intocada na coleção da MPB, “Um Samba Que Nem À Rita, À Dora”, que possui uma batida semelhante à “A Rita”, foi eternizada na voz de Seu Jorge.

“O Chico falou que a Rita levou o sorriso dele e o assunto / Eu sofri seu sofrer mas pergunto se o meu ele ia agüentar”. Esses versos dizem bem o estrago causado por Dora e o sofrimento passado pelo compositor. No decorrer dos versos da canção, Luiz Carlos diz ter feito tudo pela moça e, mesmo assim, ela o abandonou além de, com ela, ter levado tudo que ele já tinha decidido dar: “Acontece, Chico, você mesmo disse que a Rita levou o que era de direito / Acontece que a Dora, sem ter o direito, levou tudo que eu já iria lhe dar”. De uma forma bem humorada, o sambista alega ter feito de tudo para agradar a amada, como no verso: “A quem tanto queria um presunto, dei meu corpo morrendo de amar”. Luiz Carlos de tanto fez que até uma máquina de lavar ele comprou para agradar à mulher de sua vida, além de ter contratado uma passadeira de roupas para que ela não tivesse que trabalhar em casa: “Num instante, eu tirei suas mãos lá do tanque / Presenteei, máquina de lavar / Contratei para passar a dona Sebastiana”

Rita Lee

As Ritas são várias na Música Popular Brasileira. Chico Buarque cantou uma Rita (que na verdade não era a Rita), Luiz Carlos da Vila pegou o bonde andando e, em comparação com “A Rita” de Chico, cantou a Dora. Entretanto, há também as Ritas que fazem parte da MPB de outra forma: compondo, atuando, interpretando… Filha de um imigrante norte-americano com uma descendente de italianos, a paulista Rita Lee é uma das mais geniais compositoras, cantoras e atrizes brasileiras. Também conhecida como “Rainha do Rock Brasileiro”, ela é a brasileira que mais vendeu discos na história. Como integrante da banda Mutantes, a cantora está eternizada no cenário nacional após fazer parte dos festivais de músicas que tinham espaço, durante as décadas de 60, 70 e 80, nos canais da televisão brasileira. Mais recentemente, apareceu outra figura. Já no começo de sua carreira, Maria Rita já conseguiu importantes prêmios e, hoje, já é uma grande cantora no cenário nacional. Com uma herança mais que privilegiada, pois Maria Rita é filha da imortal Elis Regina, a cantora tem consigo o maior aliado no caminho de ainda sucesso: o dom de cantar. Sua voz encanta e a artista, assim como a mãe, tem a capacidade de interpretar obras de vários estilos diferentes.

Dentre todas as mulheres cantadas na Música Popular, as Ritas possuem seu espaço reservado. Desde a Ditadura Militar até os dias atuais, elas são importantíssimas na construção e resistência da MPB. Portanto, deixe-se levar por estas incríveis mulheres e viva um verdadeiro “Caso Sério” com as Mulheres Cantadas da Música Popular Brasileira.

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